O piano, a batata e a cidade: a história do Beto Batata
Viver em Curitiba no início dos anos 2000 era sinônimo de muita coisa, principalmente fazer parte de uma cidade que borbulhava cultura. Símbolo dessa história, ecoava no Alto da XV o som de piano que vinha da Rua Professor Brandão. Era dali que surgia uma das combinações mais inusitadas e marcantes da cena curitibana: boa música, arte por todos os cantos e batatas suíças servidas com alma. Assim era o Beto Batata, restaurante criado pelo empresário e artista Robert Amorim, o Beto.
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Aberto em 1999, o espaço nasceu de um antigo armazém transformado por ele em ponto de encontro entre gastronomia e cultura. No início, Beto ainda fazia tudo sozinho, até as idas ao Mercado Municipal, fosse a pé ou de ônibus. Com o sucesso do primeiro ano, veio a dúvida que se tornaria símbolo do restaurante: “compro um carro ou um piano?”. O piano venceu.
Mais do que um restaurante, o Beto Batata foi uma experiência. A batata suíça, receita que se popularizou pelo país inteiro, era o carro-chefe, mas o que encantava mesmo era o clima do lugar. Cada batata poderia durar até 40 minutos para ficar pronta, isso depois de conseguir ser atendido, mas com a atmosfera viva e musical, poucos se importavam. O salão se enchia de artistas, músicos e intelectuais que se encontravam entre taças de vinho e apresentações que iam de Arrigo Barnabé a Waltel Branco, e de Cristina Buarque a Guilherme Arantes.
Ele sempre foi um mecenas, um homem que acreditava que arte e gastronomia podiam dividir a mesma mesa. O dinheiro que ganhava com o restaurante voltava para o palco, nas apresentações que bancava ou nos cachês de músicos e artistas que ele mesmo admirava. Beto transformou o jantar em espetáculo e o salão em galeria, abrindo espaço para novas vozes, quadros e ideias. Foi também um dos primeiros a entender que comer fora podia ser mais do que uma refeição: podia ser um mergulho cultural.

A receita de batata suíça que hoje é comercializada em todo país nasceu no fogão do Beto. Foto: Anacron Teos/Gazeta do Povo
O Alto da XV, até então um bairro de rotina tranquila e sem grandes pontos noturnos, ganhou nova vida com o movimento criado pelo Beto Batata. A casa atraiu público, movimentou artistas e ajudou a redesenhar o mapa gastronômico de Curitiba. Dali em diante, a região se consolidou como um dos endereços preferidos de quem buscava boa comida e boas conversas. Anos depois, seria o mesmo bairro que receberia os restaurantes de Délio Canabrava, um dos nomes formados sob a influência de Beto.
A genialidade incompreendida e o amor pela arte criaram um ambiente único. As paredes eram tomadas por obras de artistas locais, o salão abrigava exposições e recitais, e cada mesa tinha um mix de pimentas feito pelo próprio Beto, tão bom que a equipe tinha que cuidar para as pessoas não levarem. Mas a generosidade de Robert era tanta que, se alguém pedisse um vidrinho, ele entregava de presente.
O espaço também foi uma escola. Beto, filho de donos de boteco, cresceu no meio e tinha muito a ensinar. O seu tempo era de graça e suas conversas eram um presente. Quem aproveitou, chegou longe. “Tudo o que eu tenho, eu devo a ele. O Beto Batata, Robert Amorim, considero um dos meus padrinhos e um dos professores, talvez o mais importante”, diz o chef em gratidão. Robert, incentivando os negócios do seu pupilo, foi o primeiro no país a servir a torta banoffi em seu restaurante, receita trazida ao Brasil pela confeiteira e esposa de Délio, Renatta Farian.

Délio e sua família hoje estão à frente da Centina do Délio, do bar Canabenta e da Banoffi. Foto: Deyse Carvalho/Sabores de Curitiba
“Ele era muito conversador, ele gostava de chamar pessoas, atrair pessoas e conversar com pessoas. Ele tinha assunto com todo mundo, desde o meu pai até meus filhos. Gostava de arroz e feijão, assim como gostava de um bom vinho Sauternes. Era uma pessoa simples, mas muito culta, muito estudada, lia muito. As pessoas gostavam de conversar com ele porque o que ele falava, você não achava em nenhum almanaque, nenhum Instagram, no Google… eram conselhos bem conceituais. Acho que essa palavra, conceitual, eu aprendi com ele”, conta o chef.
O sucesso, porém, veio junto com as dificuldades. Sempre apaixonado por arte e pouco atento às contas, Beto começou a vender partes da marca para manter o projeto. Ele nunca foi enganado, mas acabou vendendo aos poucos: primeiro 10%, depois 20%, depois 30%. Precisava de dinheiro para continuar fazendo do jeito dele.
Vieram então as novas unidades, uma no ParkShopping Barigüi e outra na Rua Schiller, no Hugo Lange, administradas por novos sócios. A proposta era ampliar o sucesso da marca e levar a batata suíça curitibana para outros públicos, mas o formato das novas casas acabou distanciando-se da atmosfera original do Alto da XV. No shopping, o espaço ganhou ritmo de praça de alimentação, longe da música ao vivo, das conversas demoradas e do piano que se tornou ícone da primeira casa.

O Beto Batata não foi a única aventura gastronômica de Robert. O restauranteur também já abriu outros negócios, inclusive em Parati. Foto: Divulgação
A força da marca manteve o nome em evidência por algum tempo, mas o espírito boêmio e cultural se perdeu aos poucos. O Beto Batata, que nasceu como um lugar de encontro, tornou-se um negócio dividido entre novos sócios e tentativas de adaptação a um modelo mais comercial. Mesmo assim, as novas unidades preservaram parte do cardápio e ajudaram a popularizar a batata suíça entre os curitibanos.
O restaurante original, rebatizado como Aldeia do Beto, encerrou as atividades em 2014, pouco antes da demolição do imóvel. O próprio Beto reconheceu, em entrevista a Gazeta do Povo: “não tenho casa própria, nem carro, mas me sinto milionário. Faria tudo de novo”. Já as unidades seguintes resistiram até 2020, quando a última, no ParkShopping Barigüi, fechou as portas.
Ainda assim, o legado do restaurante permanece vivo. Muita gente que trabalhou ali abriu o próprio negócio depois. Ele inspirou toda uma geração. E se a batata suíça virou paixão curitibana, foi porque Beto a transformou em símbolo de uma filosofia simples: unir comida, arte e generosidade em um mesmo prato.
Foto: Divulgação/Bar do Celso