Bar Brahma e o balcão onde Curitiba aprendeu a tomar chope
Por quase duas décadas, houve um endereço em Curitiba onde o chope não era apenas uma bebida: era um convite para ficar. O Bar Brahma nasceu em 1999, na esquina da antiga fábrica da cervejaria, no Rebouças, e se tornou um daqueles lugares que ajudam a cidade a se reconhecer no espelho. Quem entrou ali alguma vez dificilmente saiu igual.
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Naquele fim de década, Curitiba ainda engatinhava na cultura do chope bem tirado. O empresário e antigo dono do bar, João Guilherme Leprevost, lembra que a proposta surgiu de uma parceria direta com a Brahma, muito antes de a marca se tornar Ambev. “O Bar Brahma foi uma iniciativa da Ambev, que na época ainda era Brahma, junto comigo, que já era parceiro deles. E o bar surgiu para fomentar a cultura do chope na cidade”, conta.
Para isso, houve pesquisa, observação e muita escuta. Depois de conhecer o mercado “chopeiro” da capital carioca, o Bar Brahma chegou na cidade com o conceito de bar democrático. Na prática, isso significava um espaço onde não existia hierarquia social: operários da fábrica e empresários dividiam o mesmo balcão, recebiam o mesmo atendimento e brindavam com o mesmo chope bem tirado e gelado.

O endereço ajudava a contar essa história. O bar funcionava dentro do terreno da fábrica da Brahma, que na época ocupava a esquina da Avenida Getúlio Vargas com a Iguaçu Negrão. O espaço foi aberto em um pequeno pedaço da própria estrutura industrial, quase como uma extensão natural da cervejaria. O chope preto, produzido no dia, vinha direto dali “Até o pessoal brincava: o chope veio direto da fábrica”, relembra João.
A ambientação reforçava essa sensação de pertencimento. Tijolos aparentes, madeira, a estrutura fabril e as paredes ocupadas por fotografias antigas, referências da noite curitibana ajudavam a criar um clima que misturava passado e presente.
“A gente foi atrás de muitas fotos, de muitas referências, de 100 anos atrás”, conta o empresário.Havia canecas históricas, peças antigas das fábricas da Brahma e memorabilia espalhada por todos os cantos. Tudo ajudava a construir um lugar que parecia existir há muito mais tempo do que realmente existia.

Mas o sucesso não veio só do cenário. Veio, principalmente, de método. João costuma dizer que o Bar Brahma não foi apenas um bar, mas “quase uma escola de aprender a tomar chope.” A obsessão pela qualidade era diária, metódica e constante. Atendimento, temperatura da bebida, volume do som, limpeza, comida. Nada era deixado ao acaso.
A gastronomia acompanhava o espírito de boteco bem feito. Petiscos clássicos, releituras e criações próprias que marcavam o salão pelo cheiro antes mesmo de chegar à mesa. “A picanha-na-chapa era uma coisa maravilhosa. Quando ela saía da cozinha para o salão, espalhava aquele cheiro no salão inteiro. Em seguida, já vendíamos três, quatro daquelas”, recorda.

O bar lotava e o improviso virava parte da experiência. “Faltava cadeira, pegava engradado de cerveja, punha para as pessoas sentarem em volta da mesa.” Ainda assim, João sabia que sucesso não se sustenta sozinho. Por isso, implantou algo raro no setor: o cliente oculto. “A cada três, quatro meses, a gente tinha um grupo de 50 pessoas que iam no bar durante uma semana, quinze dias, e avaliavam tudo”, revela. Da recepção à limpeza, da comida ao som. Depois vinha o diagnóstico. E as correções.
O rigor chegou a um ponto inédito. “A gente foi o único bar do mundo com certificado de qualidade ISO 9000”, conta com orgulho. A certificação, comum em grandes indústrias, rendeu matérias nacionais e virou símbolo de um bar que levava o serviço tão a sério quanto qualquer fábrica.

Para quem entrava no salão, a experiência era direta e sem ruídos. Afinal, na casa, o freguês era patrão. “A gente tinha a cultura de não deixar o copo vazio, a não ser quando o cliente pedia para parar”, detalha João. Era um lugar para ficar mais um pouco, pedir mais um petisco e acabar voltando dias depois.
O futebol também ocupava papel central na rotina do bar. Eram muitas telas espalhadas pelo salão, permitindo cada um torcesse para seu time do coração durante a rodada do campeonato. Em dias de Copa do Mundo, o Bar Brahma mudava de horário, de ritmo e de energia. Abria mais cedo, ficava cheio por mais tempo e virava ponto de encontro de brasileirinhos, em um clima coletivo que ajudou a consolidar o bar como referência para assistir futebol em Curitiba.

Mesmo depois de quase 20 anos, o bar não dava sinais de desgaste. “No seu último mês de existência teve o maior movimento e faturamento da sua história”, explica Leprevost. O fechamento, em agosto de 2018, não foi motivado por queda de público ou perda de relevância. A antiga fábrica foi desativada e o imóvel acabou sendo doado ao Estado. Sem possibilidade de permanência naquele endereço, o Bar Brahma precisou encerrar suas atividades.
A desmontagem foi tão rápida quanto simbólica. Em menos de 24 horas, tudo foi retirado do salão. Dias depois, veio o bazar: três dias em que absolutamente tudo foi colocado à venda. Cardápios, banquetas, quadros, copos, utensílios e até o alvará do bar encontraram novos donos, levados como lembrança por clientes que queriam guardar um pedaço daquela história.
Entre esses episódios, um se tornou especialmente emblemático. Um frequentador assíduo foi ao bazar decidido a levar uma das banquetas do balcão. Não qualquer uma, mas exatamente aquela em que costumava sentar. Reconheceu-a por uma pequena marca quase imperceptível e fez questão de levá-la para casa.
Hoje, o Bar Brahma não existe mais fisicamente. Mas permanece inteiro na memória de quem viveu ali. João guarda fotos, recortes e lembranças de um projeto que não se repetiu. Ele não fala em reviver o Bar Brahma, mas admite que aquela história deixou um gosto de quero mais. Enquanto isso, Curitiba segue carregando a herança de um bar que ensinou a cidade a beber chope.