Caruso Empadas: quatro gerações e um sabor que atravessou Curitiba
Quem passou pela Rua Visconde do Rio Branco ao longo das últimas décadas talvez não tenha percebido de imediato o que havia ali. Uma casinha discreta, prateleiras antigas, uma porta sempre aberta e o cheiro constante de algo assando. Era a Caruso Empadas, uma mercearia inaugurada em 1954 por Enrico Caruso que, com o tempo, se transformaria em um dos endereços mais tradicionais da cidade. Um lugar que atravessou gerações e fez da cozinha o fio que amarrava a história da família.
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A trajetória começa um pouco antes da loja. Antonio Nerone Caruso, o Nero, pai de Enrico, já vinha da gastronomia: teve restaurante, lanchonete e bar em Curitiba e em Guaratuba. Foi dele que veio a primeira receita que marcaria o sobrenome.

Seu Enrico faleceu em 2010, aos 78 anos, deixando seu legado na gastronomia da cidade. Foto: Arquivo Pessoal
Guilherme Caruso, bisneto do Nero e último dono da Caruso empadas, conta que a famosa receita surgiu por acaso, sem pretensão alguma. “Meu avô, Enrico Caruso, pediu para o meu bisavô fazer umas empadinhas para levar para o bolão e ele decidiu fazer com massa folhada. Meu avô levou e todo mundo amou que era com massa folhada, disseram que nunca viram uma empada com massa folhada”, conta.
Com a receita aprovada, Enrico decidiu vender algumas unidades. Naquela época, o foco ainda eram os produtos da mercearia, e até alguns importados, mas a fama do salgado cresceu rápido. Primeiro eram os vizinhos pedindo mais uma, depois conhecidos que atravessavam o bairro para buscar a tal empada diferente. A receita, feita com massa folhada e recheios generosos, foi tomando espaço até virar o carro-chefe.

Apesar de as empadas serem o grande sucesso da Caruso, a loja também vendia outros salgados, como uma saborosa coxinha de massa de batata. Foto: Arquivo Pessoal
A loja nunca mudou de endereço. O bairro se transformou, as compras migraram para supermercados, outras mercearias sumiram pelo caminho, mas a casa da família Caruso permaneceu igual. Os sabores também evoluíram: do clássico de palmito e camarão surgiram novos recheios ao longo das décadas, todos mantendo a mesma base e a mesma técnica.
Com o passar dos anos, o movimento da casa também ajudou a definir o cardápio. Segundo Guilherme, pela manha e pela tarde, os fregueses fieis faziam fila na frente da Caruso atrás das cobiçadas empadas, porém das 11h às 15h, o movimento era tão escasso que seu Enrico fechava as portas e ia almoçar em casa. Foi aí que surgiu um novo favorito: o almoço executivo feito pela dona Sylvana Caruso, mãe de Guilherme. “De repente entravam 40 pessoas, ficava aquela bagunça… E ia todo mundo embora, passava mais algumas horas sem ninguém. Então a minha mãe começou a servir o almoço executivo, que acabou fazendo um sucesso e durante muitos anos foi o motor também. Na época do almoço, a nossa feijoada foi ficando super famosa. Ainda acho que é a melhor feijoada que eu já comi”, relembra.

Mantendo a tradição familiar, Enrico, filho de Guilherme, também esteve no balcão que foi do seu avô por tantos anos. Foto: Arquivo Pessoal
Em 2001, a quarta geração da família entrou oficialmente atrás do balcão. Guilherme tinha acabado de voltar de um intercâmbio, cursava Administração na Universidade Federal do Paraná e decidiu ajudar o avô, que já pensava em fechar a loja. A partir dali, passou a dividir a rotina do restaurante, da cozinha e da produção, aprendendo cada etapa enquanto mantinha a casa funcionando.
No início dos anos 2000 também surgiu uma oportunidade de expansão. Em 2003 abria a franquia do ParkShopping Barigüi, marco que também virou um desafio. A demanda da loja cresceu exponencialmente, a ponto de a maior parte da produção da matriz ser direcionada ao shopping. Outras lojas até carregaram o nome da Caruso em seus letreiros, mas não com o mesmo cuidado e assim, não perduraram.
Nessa época a Caruso Empadas da Visconde já não era tão visitada. Com o centro pipocando e os carros indo para lá e para cá, os pedestres nem os motoristas tinham mais vez. “O meu ponto sofria com aquele problema de estacionamento e de não estar mais no fluxo das pessoas, né? Esses dias eu fui transitar por lá e está impossível. Não dá vontade”, relata Guilherme.
Em 2018 a loja do ParkShopping Barigüi fechou as portas e com ela se foi 80% da receita da matriz. Com isso, funcionários precisaram ser desligados, o almoço deixou de existir e Guilherme passou a acumular caixa, atendimento e parte da cozinha.

A equipe da matriz chegou a contar com doze colaboradores. Foto: Arquivo Pessoal
“Quando fechou, eu falei, olha gente, a gente tem duas opções: ou eu fecho as portas amanhã vendo tudo e acerto a rescisão de vocês e tal e fechamos o negócio. Ou então eu tenho que, das dez funcionárias, ficar com duas porque não tenho mais receita para pagar ninguém. Então funcionárias já estavam há muitos anos na casa – eu sempre tive uma relação muito boa com os funcionários, três delas me viram praticamente nascer e crescer –, já se prontificaram. Estavam muito perto da aposentadoria ou no caso de uma das funcionárias já estava até aposentada e tinha sido recontratada. Então fiz a rescisão de todas elas”, revela.
A crise, que já apertava antes mesmo da pandemia, piorou em 2020. A família anunciou que a Caruso encerraria as atividades, notícia veiculada na TopView e escrita por Reinaldo Bessa ganhou repercussão na cidade. A comoção foi tanta que as entregas ganharam força e o movimento voltou por alguns meses, adiando o fechamento definitivo. Ainda assim, o custo era alto demais para manter tudo de pé.

Com o fim da operação, todos os equipamentos foram vendidos, sobrando apenas uma panela e um rolo. Foto: Arquivo Pessoal
Guilherme vendeu o imóvel da família e passou a ser inquilino do próprio negócio, segurando a operação enquanto conseguiu, sustentado por clientes que insistiam em buscar as empadas congeladas ou prontas para levar. Depois de um longo processo de resistência, a loja fechou de vez em 2021, encerrando uma história de 66 anos no mesmo endereço.
Sem a loja, Guilherme voltou ao mercado como CLT, mas não por muito tempo. Como o telefone antigo da Caruso continuava com ele, as mensagens nunca pararam. Gente perguntando pelas empadas, pedindo uma fornada especial, querendo saber se a loja ainda estava funcionando. A demanda retomou o que parecia ter se perdido.

Os empadões Caruso são tamanho família, servindo até cinco porções. Foto: Arquivo Pessoal
Com as mãos de volta à massa folhada, o neto aprimorou a receita do bisavô em um tamanho família e hoje ele produz diariamente sob encomenda os empadões, em quatro sabores: Frango (R$ 140), Palmito (R$ 140), Palmito com Camarão (R$ 180) e Bacalhau (R$ 190), mantendo vivo o último elo da tradição construída por seu bisavô e aperfeiçoada por seu avô.
As encomendas de empadões podem ser feitas através do WhatsApp pelo número (41) 9928-8891.