O novo Oscar brasileiro? Feito Pipa conta, pelo olhar de uma criança, uma história de gente grande
Na última semana tive o privilégio de assistir previamente o representante brasileiro no Oscar 2027, Feito Pipa. Estrelado por Lázaro Ramos e dirigido por Alan Deberton, o filme acompanha Gugu, um menino corajoso que vive com sua vó Dilma no interior e vê sua vida mudar drasticamente do dia para a noite. O filme chega aos cinemas nesta quinta-feira, 05 de novembro, com uma narrativa melancólica e cheia de coração.
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A estrela do filme é Yuri Gomes, garoto que interpreta Gugu. O protagonista não abre mão daquilo que o faz feliz, seja dançar a última da Pabllo Vittar, jogar bola ou se arrumar para o forró junto com a sua avó Dilma (Teca Pereira). Mas o jeito como o menino escolhe enfrentar a vida frequentemente vira o assunto da cidade pequena onde vive. Quando seu porto seguro, sua vó, começa a esquecer algumas coisas, Gugu tem que aprender a viver com uma nova versão de Dilma e, consequentemente, numa nova realidade.
Foto: Reprodução/Paris Filmes
Yuri Gomes, com tão pouca idade, consegue completar a tarefa difícil que é se conectar ao público, não importa qual seja a geração. Gugu é o retrato de toda criança singular, que ousou viver diferente, mesmo desagradando tanta gente. Ele é engraçado, doce, parceiro para toda hora, mas, apenas por existir, é alvo maldade, injustiça e indiferença. Quando sai da sessão, o que não faltou foram olhos marejados de quem se identificou com a história do menino. Se em 2024 e 2025 Fernanda Torres e Wagner Moura dominaram o cinema brasileiro, não me espanta se, em 2026, Yuri Gomes seja o novo nome sinônimo de orgulho nacional no cinema.
Mas um filme não se faz com um ator só. Teca Pereira é, ao mesmo tempo o oposto e o reflexo de Yuri. Ele com 12 e ela com 74 anos, parecem ter a mesma idade em cena. Começam com a mesma jovialidade e paixão pela vida mas, ao longo do filme, trocam de papel, e o menino vira um septuagenário enquanto a avó volta a ser criança. Lázaro assume o papel difícil de um pai que não sabe amar e não consegue entender o filho.
Luciana Baseggio, diretora de fotografia, capricha ao captar o cenário de Feito Pipa. O filme foi gravado nos arredores de Quixadá, no sertão cearense. Assim, emolduram a história a caatinga, formações rochosas únicas e açudes. Luciana capturou a beleza milenar da região, deixando a atmosfera do longa mágica, permeada pelo céu cor de rosa e o laranja do campinho com chão de barro onde Gugu faz seus gols.
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Foto: Reprodução/Paris Filmes
Quem não teve a mesma destreza foi o roteirista André Araújo. Apesar de o fio que conduz a história ser completo e bem idealizado, o diálogo da produção deixa a desejar. Não sei se faltou uma imersão maior na região, no grupo ou na cultura, mas o que senti falta foi de veracidade das conversas. Mesmo que seja uma obra de ficção, é preciso que o público acredite que o personagem possa falar o que foi escrito.
Não há dúvidas do porquê Feito Pipa foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país. O filme deixa o coração inquieto, provando a doçura e o amargor de uma infância injusta, cruel mas mesmo assim cheia de vida e amor.