Ponto Sem Retorno não comove em duas horas de voo livre nos Estados Unidos
Filmes do Ridley Scott ou são muito bons ou um completo fiasco. Para a infelicidade de muitos que, assim como eu, passarão duas longas horas no cinema indo prestigiar o elenco, Ponto Sem Retorno só alcança a mediocridade. O filme estreia nesta quinta-feira e traz Jacob Elordi, Margaret Qualley e Josh Brolin no elenco.
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O filme não sabe o que quer ser. A história se passa num mundo pós pandemia onde tudo deu errado. Aparentemente não foi desenvolvida a vacina e parte significante da população morreu. Quem sobreviveu vive como dá: criando gado, cultivando uma horta no quintal de casa e saqueando o que resta de suprimentos das cidades. Porém, como uma vida pacata e agropecuária não dá enredo, o diretor também inventou uns grupos que se portam como arruaceiros e/ou zumbis.
Hig, personagem de Elordi, se encontra numa situação mais que privilegiada com seu avião que funciona, um fardo de Coca-Cola Zero e um cachorro obediente. Para mim, o avião é a melhor parte do filme. As paisagens por onde ele passa prova que pode ter beleza nos Estados Unidos, ao invés de supremacia branca e colonialismo. Por isso, quando Hig decide se enveredar em uma grande aventura o colocando em risco, eu fiquei chateada.
O protagonista já perdeu tudo na vida, a esposa, o bebê, e quando ele perde mais um ente querido, sua depressão se transforma em mania e ele decide que sobreviver com uma Coca gelada não é mais o suficiente. Assim ele vai em busca de um terra prometida – mesmo tendo tudo que ele precisa em casa.
O problema desse desejo é que ele é puramente egoísta. Certo, ele estava apenas sobrevivendo e profundamente entediado, mas ele tinha tudo que precisava em casa. Além disso, ele tinha um colega de quarto (ou rancho) idoso. Então deixá-lo isolado, sem o avião ultrapassa os limites do egoísmo. Assim, fica difícil ter empatia pelo homem branco latifundiário dono de um avião
Triste é que o roteirista se esforça por 120 minutos para fazer de Hig um personagem carismático. Mata a esposa do cara, o bebê, explode a casa dele, derruba o seu avião (um minuto de silêncio por favor), leva ele para sua casa antiga para ver o fantasma da mulher e mesmo assim não dá jeito. Eu não sei se o problema é o estilo de atuação blasé de Jacob Elordi ou a quantidade de clichê num filme só.
Quando você acha que não pode piorar, ele encontra uma namoradinha. Os dois passam boa parte do segundo ato numa competição ferrenha de quem é o mais coitado. “Minha esposa morreu”, ele diz. “Meu marido também”, ela responde. “Mas eu matei minha esposa”, ele retorna. “A minha mãe morreu de câncer”, ela retruca. Tudo isso enquanto eles querem se pegar.
E é neste mesmo ato que conhecemos os doidinhos do centro que saqueam a casa dos outros. Essa é a cereja do bolo para deixar esse filme ainda mais confuso. Em uma das casas chega o o que parecia ser elenco de figurantes The 100, com arcos, flechas e lanças em cima de cavalos. Na outra, chega os zumbis de The Walking Dead, descamisados, cheios de tatuagens enigmáticas e carecas, com o único objetivo de queimar tudo. Vale lembrar que não há zumbis nesse filme, então o descompesamento é arbitrário.
Quando a grande viagem do Hig dá com os burros n’água, eu já tinha desistido do filme mas o que eles fizeram consegue ser ainda pior. O destino dele é a Grand Junction, que pelo nome é de se esperar um gigantesco quartel general. Mas quando ele chega no Aeroporto do Bacacheri foi-se a última esperança de meu coração.
Como deu para perceber, Ponto Sem Retorno não é um dos hits de Ridley Scott. Se eu fosse ele, aproveitaria as filmagens do avião e faria um documentário sobre as montanhas norte-americanas e esqueceria que esse filme sequer existiu.