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Prêmios gastronômicos: reconhecimento real ou jogo de poder disfarçado de troféu?

Por Vinicius França
Foto: Canva

Certa vez, conversando com um empresário do setor de gastronomia em Curitiba, ouvi uma frase que não saiu da minha cabeça: “o problema não é ganhar o prêmio. É que às vezes você não entende por que perdeu.” A frase não era amarga. Era apenas honesta sobre um universo que mistura mérito real com relações públicas afinadas, critério técnico com visibilidade de marketing, e reconhecimento genuíno com opacidade sistemática.

Esse universo é o das premiações gastronômicas. E merece ser examinado com seriedade.

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Primeiro: nem todo prêmio é a mesma coisa

Existe uma confusão muito comum que precisa ser desfeita antes de qualquer análise: tratar todas as premiações como equivalentes. Não são.

Há pelo menos três categorias distintas de reconhecimento no mundo da gastronomia. A primeira é a avaliação técnica com critérios objetivos, em que inspetores anônimos visitam os restaurantes, pagam as contas, e julgam com base em parâmetros definidos pela própria organização. O Guia Michelin é o exemplo mais antigo e conhecido desse modelo.

A segunda é a votação por júri especializado, como o 50 Best Restaurants, em que cerca de 1.000 profissionais por categoria, chamados de “académicos”, votam nos restaurantes que visitaram nos últimos 18 meses. O voto é pessoal, mas o acesso ao júri não é aleatório: é preciso ser indicado e fazer parte de um circuito específico de visibilidade.

A terceira é a votação popular, em que o público escolhe por afinidade, engajamento e mobilização. Mais democrática na proposta, mais sujeita a distorções na prática.

Entender em qual dessas categorias um prêmio se encaixa é o passo essencial antes de dar a ele qualquer peso.

O que os prêmios fazem bem e por que importam

Seria desonesto começar pela crítica sem reconhecer o valor real das premiações. Ele existe e é concreto.

Reconhecimento movimenta negócios. Um restaurante que recebe uma estrela Michelin ou uma colocação no 50 Best atrai novos clientes dispostos a viajar para aquela experiência, melhores fornecedores interessados em associar o nome ao estabelecimento, e profissionais que querem trabalhar num time que o mercado reconhece. Prefeituras disputam o patrocínio dessas cerimônias porque um ranking bem colocado se traduz em turismo, investimento e reputação da cidade no mapa gastronômico global.

Para os profissionais, a busca pela premiação funciona como motor de evolução. Novos pratos são criados, técnicas são refinadas, equipes são desafiadas a superar o que já fizeram. O reconhecimento, antes mesmo de chegar, já transformou o processo.

Em 2026, pela primeira vez na história da América Latina, dois restaurantes brasileiros conquistaram três estrelas no Guia Michelin: Tuju e Evvai, ambos em São Paulo. A repercussão foi global. Isso representa anos de trabalho silencioso de equipes inteiras, e um prêmio que os celebra tem valor que vai além do troféu.

O que os prêmios não dizem

Os restaurantes premiados tendem a compartilhar um mesmo vocabulário de arquitetura, ingredientes, formato de menu degustação e serviço. Existe uma gramática do prêmio, e quem a domina larga na frente. Essa observação aponta para uma limitação estrutural das premiações: elas criam padrões que tendem a se autorreplicar.

O risco concreto é a homogeneização. Quando o setor inteiro sabe qual é o molde que rende estrela, a cena começa a convergir demais para um mesmo padrão estético e operacional. E quem não cabe nesse molde raramente aparece nas listas, não porque seja inferior, mas porque o critério não foi desenhado para incluí-lo.

O Guia Michelin no Brasil se concentra no eixo Rio–São Paulo, deixando de fora a cozinha do Nordeste, da Amazônia, do interior, dos botecos e das feiras. O Brasil que cabe na lista é uma fração pequena, e quase sempre a mais sofisticada, do Brasil que existe.

O lobby que ninguém quer chamar pelo nome

O funcionamento do 50 Best envolve “académicos” que votam nos restaurantes que visitaram. O que a descrição não captura é que parte do trabalho para aparecer nessa lista é justamente construir visibilidade para esse júri específico: press trips, eventos, relações públicas em circuitos internacionais. Quem não tem acesso a esse circuito dificilmente entra no radar, não importa a qualidade do que serve.

A pesquisadora Cynthia Arantes Ferreira Luderer, em sua tese de doutorado pela PUC-SP sobre o papel dos chefs-celebridades na construção do espetáculo da alimentação, mostrou como as mídias especializadas em gastronomia constroem ativamente o prestígio de quem nelas aparece. O crítico, o chef premiado e o veículo que cobre o prêmio formam um triângulo de legitimação que se retroalimenta. Entrar nesse circuito é tão importante quanto cozinhar bem, às vezes mais.

A pergunta que fica é simples e desconfortável: quem está fora desse triângulo?

A zona cinzenta dos prêmios de veículos de comunicação

Há um debate que circula entre bastidores do setor mas raramente aparece em público: alguns prêmios criados por veículos de comunicação seriam, direta ou indiretamente, sensíveis à relação comercial com os estabelecimentos avaliados. Restaurantes que anunciam aparecem com mais frequência entre os indicados. Restaurantes que não anunciam raramente são lembrados.

É importante ser preciso aqui. Isso não é uma acusação universal. Existem premiações de veículos conduzidas com júri independente, critérios divulgados publicamente e sem interferência do departamento comercial. Essas existem e são legítimas.

O problema é que quando os critérios de seleção não são públicos, quando não se sabe quem compõe o júri, como os candidatos são escolhidos e se há alguma influência comercial no processo, a desconfiança do setor não é paranoia. É a resposta racional a um sistema opaco.

Onde termina a opinião sincera e onde começa a publicidade disfarçada? Muitas vezes a linha entre os dois desaparece, gerando desconfiança no público e confusão nos próprios estabelecimentos, que não sabem se estão investindo em marketing ou em uma relação autêntica.

Votação popular: o mais democrático e o mais distorcível

As premiações por voto popular têm uma proposta genuinamente interessante: dar ao consumidor o poder de reconhecer o que gosta. Na prática, o resultado é influenciado pela capacidade de mobilização de cada estabelecimento.

Um restaurante com CRM ativo, disparos de WhatsApp bem calibrados e uma base engajada de seguidores tem vantagem estrutural sobre um restaurante com comida melhor mas sem estrutura de marketing. O que o prêmio popular mede, portanto, não é necessariamente qualidade técnica. É a força da relação entre o estabelecimento e seu público, o que tem valor, mas é diferente de “o melhor”.

O que tudo isso significa na prática

A gastronomia precisa de reconhecimento. Chefs, equipes e empresários que dedicam anos a construir algo relevante merecem ter esse trabalho celebrado. Prêmios cumprem esse papel e nenhum sistema alternativo surgiu para substituí-los de forma eficaz.

O que os prêmios precisam, para que o reconhecimento signifique algo, é de transparência. Critérios públicos. Composição do júri declarada. Separação explícita entre editorial e comercial. Cobertura geográfica que não ignore a maior parte do país.

Curitiba tem restaurantes extraordinários que nunca apareceram em nenhuma lista relevante. E tem lugares medianos que ganham prêmios locais ano após ano. Isso não é necessariamente desonestidade. É o resultado de um sistema em que aparecer e cozinhar bem nem sempre têm o mesmo peso.

A pergunta que vale fazer antes de reservar uma mesa baseado num prêmio é anterior ao endereço: o que esse prêmio mede, de verdade, e quem decidiu isso?

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