Cafés instagramáveis. O que vale mais: qualidade ou uma foto bonita?
por Vinícius França
Nunca se abriu tanta cafeteria no Brasil como agora. É só dar uma volta por qualquer bairro para perceber que o café virou mais do que uma bebida: é estilo de vida, cenário e até status social. O país vive uma explosão de espaços dedicados ao grão, e o número de consumidores cresceu de forma impressionante.
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Segundo a pesquisa feita pela Fecomércio MG e da Associação Brasileira da Indústria de Café, a frequência de brasileiros que frequentam cafeterias saltou de 9% em 2021 para 51% em 2023, um aumento de quase cinco vezes. Mesmo com o preço do café em alta, a xícara segue sendo ponto de encontro, pausa necessária e, cada vez mais, uma oportunidade de foto para o feed.
O fenômeno não é apenas cultural, mas também econômico. De acordo com a Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, o setor do café deve movimentar 127 bilhões de reais em 2025, crescimento de 59% em relação ao ano anterior. O Brasil continua sendo o maior produtor de café do mundo, com previsão de safra de 55,2 milhões de sacas neste ano. Mas o outro lado da moeda também aparece: segundo o portal Brasil Agro, o café dobrou de preço entre janeiro de 2024 e junho de 2025, e as torrefadoras já anunciam reajustes de até 15%. A conta encarece da torra ao balcão, e quem sente é o consumidor final.
O curioso é que, mesmo com o aumento dos custos, o movimento das cafeterias não desacelera. Além da mesa, esses espaços vêm se transformando em locais de conexão e experiências, oferecendo Wi-Fi, ambientes confortáveis e métodos especiais de preparo. Já não basta servir um bom espresso. O cliente quer conforto, estética e, se possível, um ambiente que renda uma boa foto. A Café Cultura, por exemplo, cresceu 40% em 2024, expandindo-se para dez estados e com planos de chegar a duzentas lojas até 2027.
Ainda assim, o cenário não é só de crescimento sem limites. O aumento dos preços começa a impactar o bolso do consumidor. Segundo dados do IPCA, o café teve alta de quase 100% em um ano e meio, o que explica a leve queda de 5,41% no consumo registrada nos primeiros meses de 2025 em comparação a 2024. Com isso, muitas cafeterias têm optado por investir mais na estética do espaço do que na qualidade do grão, apostando no visual instagramável como principal atrativo.
Mas café vai muito além da foto bonita. É memória, identidade e tradição. No meio de tantas novas cafeterias e franquias que surgem a cada esquina, só vai se destacar quem conseguir entregar valor real: um café com qualidade, que conte uma história e que tenha sabor marcante. Como dizia minha avó, um café forte é mais lembrado do que um café fraco e passageiro. E talvez essa seja a maior lição para quem vive o boom das cafeterias em 2025: em meio a tantas opções, o que faz a diferença ainda é o que está dentro da xícara.